11/04/2012

Uma "verdade criada"?: Guerra dos Portos


O Senado brasileiro está prestes a aprovar a PRS 72, de autoria do Senador Romero Jucá (PMDB), ex-Líder do Governo, pela qual será ZERO a alíquota do ICMS incidente nas operações interestaduais com produtos de origem estrangeira. Dizem que isto tornará a indústria brasileira competitiva e colocará um fim à chamada Guerra Fiscal ou Guerra dos Portos. Qual é a verdade real? Parece-me que alguém está tentando “criar verdades”, valendo-se de uma técnica conhecida como Gestão da Percepção, pela qual não importa o fato em si mas o que é percebido, por que esta percepção passa a ser a única verdade, absoluta e plena. O Governo brasileiro já usou esta técnica nos tempos do Ministro Delfim Neto. O “milagre brasileiro” foi uma “verdade criada”, em que ficou a percepção histórica de um crescimento da economia brasileira incompatível com a realidade brasileira. Aliás, Goebbels era tão bom no uso desta técnica que ele até fez Hitler acreditar ser Deus e os alemães acreditarem que, sozinhos e isolados, dominariam o mundo. Se a indústria brasileira nasceu primitiva, pelas mãos dos povos indígenas, ela se desenvolveu muito pouco até os tempos de JK. A “abertura dos portos” de D. João VI e a criação de uma outra industria foi apenas uma forma de minorar as suas agruras em aqui viver. Nos primórdios da República, o que se discutia era o positivismo e o que mais interessava era a agricultura – o leite para os mineiros e o café para os paulistas. Ah! E o açúcar para os usineiros nordestinos... Vargas, longe de ser um “pai dos trabalhadores”, foi um ditador vil, que nos colocou numa guerra inglória. A nossa industrialização, naqueles tempos, foi guiada por um único estímulo: a sobrevivência. A única política de industrialização foi proposta, efetivamente, por JK. Ele se foi e ela também... Poderíamos discutir o que o mundo fez e anda fazendo em termos de desenvolvimento econômico. Escolhi a Coréia. A Coréia era um país pobre, com a economia baseada na agricultura quando não estava envolvida nalgum conflito bélico. A sua indústria não tinha importância estatística alguma, até porque dependia dos chineses, dos japoneses, dos norte-americanos, dos ingleses, dos franceses... do mundo inteiro... Em 1987, os coreanos começaram as suas mudanças estruturais, instituindo um Estado democrático, voltado para garantir as bases para o desenvolvimento econômico. O processo educacional imposto pelo Governo garantiu à Coréia o “status” de uma economia baseada na tecnologia, sendo reconhecida como sendo um dos países com maior índice de desenvolvimento, em todos os aspectos. Aliás, em termos de matérias primas têxteis, a Coréia simplesmente deixou de produzi-las como “commodities”, preferindo se dedicar àquelas com alta tecnologia, dado o grande valor agregado. Se no fim dos anos 90, a Coréia era o grande fornecedor de “oxford” de “microfibras”, hoje isto virou um passado longínquo. A política educacional implementada pela Coréia conduziu a política industrial para o setor da alta tecnologia e isto pode ser observado na produção de automóveis, de computadores, de televisores, de equipamentos industriais e até mesmo de navios. E continuam produzindo matérias primas têxteis, mas agora com o foco na tecnologia avançada e até mesmo na sustentabilidade ecológica. E o Brasil viu isto acontecer, até porque perdemos um dos nossos maiores fornecedores de “oxford”... O Brasil assistiu, embora distante, as mudanças experimentadas por Seul, principalmente no sistema educacional. Viu industriais sendo condenados por crime “lesa patria”, por negarem transparência em suas transações, por governarem mal as suas corporações, colocando-as em risco enquanto se locupletavam das suas riquezas. Mas, curiosamente, o Brasil nunca se preocupou em estudar criteriosamente o que aconteceu na Coréia do Sul. Aliás, o Diplomata Paulo Roberto de Almeida já alertava, em 2010, para este “olhar vesgo” do Brasil em relação à Coréia – certamente com o receio de ser lembrado das lições que deveria aprender com quem tanto foi discriminado. Infelizmente, ao invés de investirmos na educação e sermos “tolerância zero” nesta área, optamos pelas teorias liberais que tornaram as nossas escolas verdadeiros antros do ócio improdutivo, deixando os nossos professores sem preparo adequado para enfrentar a sociedade moderna, tornando-os reféns de alunos que sequer têm a educação elementar que deve ser produzida no ambiente familiar. O reflexo disto está no mercado de trabalho, onde não profissionais minimamente qualificados e nos espantamos com engenheiros trabalhando como garis. Temos o maior número de estudantes de Direito e certamente o maior nível de reprovação no acesso à OAB, numa prova irrefutável de que as escolas brasileiras não estão educando. Aliás, neste ponto ouso observar que escolas tradicionais nunca precisaram pagar por anúncios publicitários – havia disputas por vagas. Hoje, há escolas oferecendo bolsas de estudos para atrair alunos.... Se a educação está ruim, como o Brasil pode querer uma indústria competitiva e eficiente? E, ainda por cima, sem uma política de desenvolvimento industrial? Mas é absurdo debater a questão industrial brasileira como um todo, seja pelos aspectos regionais, seja por causa das especificidades setoriais. A indústria dos vinhos é um exemplo interessante. Ela está pedindo que o Governo Federal lhe dê salvaguardas, que são medidas de defesa típicas quando há uam invasão de produtos importados em prejuízo à indústria nacional. Mas todos nós sabemos que a indústria brasileira de vinhos surgiu e se fortaleceu a partir das importações. O consumidor brasileiro passou a exigir qualidade nos vinhos brasileiros. Aliás, como as uvas produzidas no Brasil se prestam melhor à produção de espumantes, várias vinícolas se voltaram para este nicho e o resultado foi surpreendente: vários títulos nacionais de espumantes vêm sendo premiados internacionalmente. E estão pedindo salvaguardas? Há algo de podre por aí e não é o mosto, com certeza... Aliás, no caso dos vinhos, é importante o realce de que o consumidor escolhe o produto pela uva (ou o blend) com que ele é fabricado e a uva, em geral, é típica de uma região, embora algumas estejam presentes no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Ou seja, se o consumidor quer um vinho com chardonay ou com cabernet sauvignon, ele certamente encontrará vinhos fabricados em quase todo o mundo, inclusive aqui no Brasil. Mas há uvas que não são produzidas no Brasil, por razões diversas, inclusive geológicas. A uva malbec é um bom exemplo. Embora originária da França, até bem pouco tempo ela só era encontrada na Argentina. Como a uva havia sido praticamente dizimada na França, por uma praga agrícola, os franceses buscaram onde haveria condições para o seu desenvolvimento, descobrindo-se que o solo argentina era tão bom, ou até melhor, que o solo da região de Cahors. Parcerias foram desenvolvidas e hoje o mundo agradece pela excelência dos vinhos malbec produzidos na Argentina. E a França já começou a recuperar os seus vinhedos, mas todos os conhecedores reconhecem que será difícil eles igualarem ao sabor alcançado pelos hermanos… A uva nero davola é típica da Sicilia, como a sangiovese é típica da Toscana e a touriga, a baga, a castelão e a trincadeira são castas típicas de Portugal. O Brasil não produz estas uvas. Simples assim. Portanto, a não ser que haja um milagre da natureza, o Brasil não terá como produzir os mesmos vinhos originários da França, de Portugal, da Espanha e da Itália, todos com muita tradição, e nem mesmo da África do Sul, da Austrália ou da Nova Zelândia, que vêm se impondo no mercado mundial, com uvas regionais em corte com outras. No campo das matérias primas têxteis, a questão é a mesma. Somos produtores de algodão e de seda, por exemplo. Aliás, temos uma boa exportação de seda, já que o mercado brasileiro, por vários motivos, não usa grande parte da quantidade produzida. Mas, nós não somos produtores de MPTs de origem sintética, seja no aspecto quantitativo, seja no da qualidade. Simples assim. Estas MPTs são produzidas a partir de subprodutos do petróleo e o Brasil ainda está preocupado com a extração do petróleo e com a sua industrialização básica. Hoje, a China é, de longe, o grande fornecedor de MPTs de origem sintética, por várias razões, dentre as quais por estar substancialmente avançada, tecnologicamente, neste setor. Ou seja, o problema não é simplesmente preço. É qualidade e disponibilidade. É óbvio que o Brasil tem um custo de produção elevado, mas também é indiscutível que há um problema de desenvolvimento tecnológico e que as nossas plantas industriais estão defasadas em todos os sentidos. E ainda temos o problema da logística. Mas a nossa indústria de confecção é muito boa, sendo reconhecida internacionalmente em vários nichos. Contudo, sem a importação de MPTs de origem sintética a indústria de confecções não subsistirá. Ou alguém imagina ser possível produzir surfwear ou beachwear de algodão ou seda? E qualquer aumento no custo destas importações refletirá diretamente nos custos da indústria de confecções.... Mas continuamos precisando de investir em educação, uma educação que forme pessoas, artistas e profissionais. E precisamos de uma política de desenvolvimento industrial... Não há mais espaços e nem tempo para discursos hipócritas ou exercícios de “Gestão de Percepção”. Aliás, precisamos de Gestores de verdade – e da verdade! Então, caros empresários e políticos, um brinde (com espumante nacional) ao desenvolvimento industrial sustentado do Brasil! E que não nos envergonhemos de importar, mas tenhamos o orgulho de produzir e exportar. (escrito por Jonatan Schmidt, presidente da Associação Brasileira de Importadores Têxteis - Abitex)


Publicidade

© Copyright 2000-2014 Editora Bittencourt