O NAVEGANTE HIPÓLITO REBELLO
06/02/2010
A fascinante história era contada pelo meu querido e saudoso avô Ovídio José Rebello, o “seu” Doca, e vivida por seu irmão mais velho Hipólito Rebello, ilustre filho de Porto Belo, um dos primeiros municípios de Santa Catarina. É muito interessante, e precisa ficar registrada, para que não se perca no tempo, no esquecimento natural das pessoas.
Hipólito Rebello era um homem comum em Porto Belo, porém viveu intensamente rico acontecimento.
Para a pequena vila de então, mas já município, foi sempre muito considerado, pois era conhecido e respeitado pelo seu saber, diante dos demais de sua época.
Foi Juiz de Paz, agente do correio, inspetor de quarteirão, uma espécie de delegado da época, entendia das doenças e receitava remédios caseiros com muito acerto. Além do mais, era um homem sério, respeitado e admirado.
Viúvo encontrou uma jovem, de nome Adelaide, que com ele também se encantaram e casaram. Mulher igualmente inteligente e que foi a sua grande companheira, com quem teve 9 filhos, que juntaram-se a 4 outros de seu primeiro casamento.
Embora fosse um homem acostumado com as lides da terra, de onde tirava o seu sustento, sempre sonhava poder fazer uma viagem, "pelo mundo afora". Gostava de pescar e com a sua canoa ia até a Ilha de Porto Belo, ali pertinho, num platô que mais tarde receberia o seu nome, a Pedra do Hipólito. Olhava para o infinito e ficava sonhando, um dia, sair mar afora.
Até que, um dia, apareceu um amigo e o convidou para ir até Florianópolis, no Porto do Carlos Hoepcke, tentar uma vaga num barco de pesca, que trabalhava em toda a costa brasileira.
Convenceu a sua jovem Adelaide e partiu sozinho de ônibus até á Ilha de Santa Catarina, e conseguiu uma vaga de marinheiro pescador, no barco que tinha o nome de Ana I. Foi orientado a tirar sua carta de marinheiro, que foi fornecida sem maiores problemas pela Capitania dos Portos.
Embora com uma tripulação muito experiente, Hipólito conquistou já nas primeiras milhas a confiança do Mestre, e de todos os companheiros.
Pescavam em águas do Estado da Bahia, bastante distante da costa, quando o mar traiçoeiro, com ondas fortíssimas, arrancou o leme do Ana I, sem que pudessem resolver o grave problema. Passou a tempestade, mas o barco, um grande barco, para tão idos tempos, ficou a deriva, e alertava o Mestre que estavam sendo levados em direção ao norte, e o melhor seria manter a calma e esperar que aparecesse algum socorro.
Passaram-se os dias e o barco flutuando, sem causar maiores problemas, mas sendo levado pelas correntes para um destino ignorado, sempre mais ao norte.
Cansados, nervosos e sem poder se comunicarem com ninguém, deixaram nas mãos de Deus, e eis que aparece um barco que se prontificou a socorrê-los. Ninguém conseguia entender o que falavam, mas ficou claro que o “Ana I” precisava de ajuda e de reparos.
Estavam sem saber, já no Mar das Caraíbas, e o barco foi atracado num estaleiro, no que hoje conhecemos como Trinidad Tobago, numa pequena cidade que se chamava Moruga, já na América Central.
Ali foi fácil, embora falassem o inglês, muitos falavam o espanhol e o povo em sua maioria negra, receptiva tudo fez para ajudar a tripulação e o barco “Ana I” começou a ser reparado. O Mestre, através de telegrama, pelo chamado cabo submarino, comunicou-se com Florianópolis e tudo se encaminhou para uma solução.
O barco estava lotado de peixe, e a primeira coisa que o Mestre fez, ajudado pelo marinheiro Hipólito Rebello e seus companheiros de tripulação, foram distribuir quase todo o pescado para os habitantes que cercavam o Estaleiro. A hospitalidade que já se fazia sentir foi ainda mais acentuada.
Enquanto esperavam os reparos do barco, o que deve ter levado uns 10 dias, Hipólito Rebello, saiu pela pequena cidade, junto com outros companheiros e chegou a fazer amizades com aquele povo e conversava muito com os que se expressavam em espanhol.
Como falava um pouco o espanhol, conseguia se comunicar bem, certo dia, sentado numa praça, perto do estaleiro, viu passar uma charrete, puxada a cavalo, que lentamente arrastava um corpo pelas ruas.
As pessoas do lugar passavam e nem prestavam maior atenção, mas Hipólito Rebello, espantado, perguntou para uma pessoa que também estava sentado na praça, o que estava ocorrendo com aquele cadáver.
A pessoa, muito atenciosa, explicou que, naquele lugar, quando alguém falecia e tinha deixado alguma dívida, e se a família não quisesse ou pudesse pagar, ou tivesse cometido algum delito, que tivesse sido condenado, e ainda não havia cumprido a pena, pagava tendo o seu corpo arrastado durante um número de horas pela cidade. Surpreso, Hipólito Rebello, perguntou como a família que poderia fazer para evitar aquele tipo de reparação depois da morte.
Foi informado que deveria alguém da família ou mesmo qualquer outra pessoa, pagar uma taxa evitando assim essa forma de expiação e a dívida estaria paga e tudo seria esquecido para o corpo ser sepultado.
Eles haviam trocado um pouco da nossa moeda pelo dinheiro daquela Ilha, e a taxa que não era tão expressiva, foi paga pelo marinheiro Hipólito Rebello, num gesto de solidariedade com um ser humano, totalmente desconhecido, já morto, o que fez com que todos no estaleiro ficassem apreciando ainda mais os brasileiros ali aportados.
Terminado o reparo o barco estava pronto. Recebeu necessário carregamento de água, bebida e combustível, Hipólito e seus companheiros se despediram daquele povo acolhedor e se lançaram ao mar alegres e felizes.
Lá ficaram os nativos daquela misteriosa ilha, tão acolhedores, e até os familiares do morto que pôde ser sepultado lá estavam para acenar para os brasileiros que partiam. O serviço ficou perfeito e eles puderam viajar com segurança.
Já próximos de Santa Catarina, altas horas da noite, de repente, levantou-se uma tempestade, ventos horríveis e ondas gigantescas, e os que dormiam, acordaram e ficaram a postos, enquanto o barco era jogado de um lado para o outro.
Sem que nada pudesse ser feito o barco foi sorvido pelas ondas e desapareceu nas profundezas do mar, obrigando a todos a nadarem, procurando, cada um, salvar a sua vida, nadando sem saber para onde.
Foi cada um por si, numa luta desesperada pela sobrevivência.
Hipólito deu conta de si, já de dia, esticado numa praia deserta, sem ninguém ao seu redor. Desesperado, olhava para o um lado e para outro, saiu em caminhada, descobrindo que estava numa pequena ilha oceânica totalmente desabitada. Nenhum de seus companheiros se fazia presente. O que teria acontecido?
Descalço, conservava a camisa e a calça. Na alça da cinta, permanecia uma corrente, com a chave de seu armário e um canivete.
O tempo foi passando, passando, e Hipólito Rebello conseguia sobreviver se alimentando de ervas, banana que existia em grande quantidade, mariscos e ostras que conseguia tirar das pedras.
Certo dia, logo nos primeiros meses, viu que se aproximava dele um animal, que era um leão, caminhando em três patas. Ficou imóvel, sem a menor reação.
O animal cheirou o Hipólito, que estava sentado na areia, não teve qualquer reação negativa. Observou que a pata dianteira, que não tocava no chão quando andava, tinha uma farpa fincada fortemente no couro e toda inflamada.
Tirou o canivete da cinta, e cautelosamente, começou a mexer na pata ferida, sem que o leão reagisse, parecia gostar. Sentindo que o animal estava reagindo docilmente, caprichou em seu curativo e conseguiu tirar a farpa, e o pus que se acumulava e estava estancado, começou a sair. O leão reagia visivelmente aliviado, e começou a lamber o seu benfeitor.
E assim o Hipólito fez amizade com o animal, que jamais teve um gesto violento, se portando como se fosse um cão, sendo assim a sua única companhia.
O tempo foi passando, de acordo com as suas contas, lá se iam uns quatro anos que estava sobrevivendo naquela ilha, sem que jamais tivesse conseguido algum socorro. Já se acostumando com a sua desdita, quando, um dia, ouviu que alguém o chamava:
- Oh Hipólito! Dizia claramente a voz, parecendo estar perto.
Novamente a voz se fez ouvir, para espanto e ansiedade de nosso náufrago.
- Hipólito!
Andou, olhou para todos os lados e não via ninguém. Achou que estivesse delirando. Mas era um homem forte, determinado e que havia vencido aquela solidão com muita coragem.
E não demorou muito e ouviu outra vez a voz chamando: “Hipólito!”.
Sem pensar duas vezes, encheu-se de coragem e perguntou:
- Quem é que está me chamando?
A voz se fez ouvir de novo, dizendo:
- Eu sou o espírito daquele cadáver que você resgatou lá na minha terra. Foi uma grande caridade de sua parte, lhe ajudei no naufrágio e salvei a sua vida. Somente você se salvou, todos os seus companheiros morreram.
Hipólito escutava e se portava corajosamente.
- Quero informá-lo de que sua esposa Adelaide, achando que você morreu, está para se casar novamente. E se você quiser voltar, jogue-se no mar e nade. O resto serei eu a fazer. Posso ajudá-lo, dando forças para chegar a sua terra, a sua casa, ainda antes do casamento. Estarei lhe acompanhando até uma ilha que tem sua terra.
A voz se calou e Hipólito Rebello, abraçou-se ao leão seu companheiro, e com lágrimas nos olhos, não titubeou e se jogou ao mar. Nadou dias e noites. Pensava que não agüentaria. E amanhecendo, depois de tanto nadar, viu a Ilha de Porto Belo, e a sua pedra onde tanto pescara. Era um platô, o qual aparece com a maré baixa.
Sentou-se na grande laje de pedra, o dia já estava claro, a ansiedade era muito grande, ele não sabia, mas era um sábado. Estava tão perto de casa e a sua Adelaide se casaria exatamente nesse dia.
Não demorou, passou uma pequena embarcação, ele pediu uma carona. Os pescadores se prontificaram, e nada perguntaram até que chegasse próximo de sua casa. Eles nem desconfiaram de quem pudesse ser. Ele, também silencioso, não se identificou. Deus traçara a sua vida, o seu destino.
Era um homem muito inteligente e pensava o que fazer. Esfarrapado, com o pouco que sobrava em seu corpo, já na Praia de Porto Belo, perto de sua casa, sentou-se à sombra de uma árvore, pensando o que deveria fazer, pois notara que a movimentação era grande. Eram aqueles que participariam do casamento.
Já bastante refeito da longa viagem a nado, cercado apenas de crianças curiosas, chamou uma delas pedindo-lhe um copo d’água. O menino atencioso foi na casa que era dele, e rapidamente voltou com a água.
Era hora do almoço, especial para os festejos de casamento da dona Adelaide. Hipólito tomou toda a água, esvaziando o copo, tirou do dedo a sua aliança de casamento, que ainda conservava e a colocou dentro do mesmo.
Pediu ao menino que levasse o copo para a noiva Adelaide. Os convidados estavam no meio do almoço, a noiva recebeu o copo, viu a aliança constatando que estava gravado o seu nome. Era a aliança que colocara no dedo do Hipólito quando do seu casamento. Mulher muito inteligente pensou... pensou... sentiu que o marido estava vivo.
Sem que ninguém pudesse notar qualquer reação maior, perguntou ao menino quem lhe mandara o copo com aquela aliança, e ele disse que foi um homem barbado que chegara do mar, todo esfarrapado, e que estava sentado num banco debaixo da figueira.
Adelaide era uma mulher espirituosa, vibrante, se levantou e pediu a atenção de todos. A noiva falou e o silêncio foi total.
- Meus amigos, quero a ajuda de vocês. Perdi a chave da porta da frente, e fui ao armazém do compadre Juvenal e comprei uma nova fechadura. Mas como vocês sabem é uma porta trabalhada, tão bonita! E este menino acaba de encontrar a chave perdida. Que acham que devo fazer?
O primeiro a responder foi o próprio noivo:
- Minha querida, fale com o seu Juvenal, ele, por certo, trocará por outra mercadoria ou até lhe devolverá o dinheiro.
O compadre Juvenal, dono da venda, que também estava na mesa, como convidado, não deixou que mais ninguém falasse;
- Comadre Adelaide, pelo amor de Deus, devolva a fechadura e nem pense em mexer nessa porta tão linda, que ainda foi colocada pelo meu saudoso compadre Hipólito.
Adelaide mostrou-se feliz e disse:
- Então, meu caro noivo, o nosso casamento está desfeito. O meu marido Hipólito está vivo e acaba de voltar depois de tanto tempo.
O espanto foi geral, o susto do noivo muito grande, e todos foram com a Adelaide para fora da casa e ela correu ao encontro do marido. Os dois se abraçaram. Estavam juntos de novo.
A festa, que seria somente naquela tarde durou por três dias.
Viveram muitos anos felizes e Hipólito Rebello, por muito tempo, teve que contar a história de sua viagem e a conversa com o espírito do devedor da Ilha de Trinidad, que salvou a sua vida.
Morreu, no dia 27 de setembro de 1924, com 74 anos e antes de morrer pediu a sua adorada Adelaide que na lápide, colocasse apenas as iniciais HR, e mesmo assim, foi a sepultura mais visitada no Cemitério de Porto Belo.
E o meu avô materno, o velho Doca, marido de minha santa avó Carola, irmão mais moço de Hipólito, assim como meus tios Emanuel e Arthur, com quem tive a ventura, o privilégio, de viver durante alguns anos de minha infância, sempre repetiam essa história, que tenho contado a filhos e netos.
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