segunda, 23 de maio de 2022
05/03/2008 00:00

Saul Brandalise Jr. diz que não mereceu a Perdigão. Empresário fala da filosofia de vida que se tornou um modelo de gestão


“A vida é merecimento. Eu não mereci a Perdigão”. As duas primeiras frases já me causaram um forte impacto. Estava diante de uma das figuras mais marcantes do empresariado catarinense, Saul Brandalise Jr., ex-gestor da Perdigão e atual presidente da Central Barriga Verde de Comunicação. Dono de uma trajetória que é uma verdadeira lição de integridade e gestão, Saul impressiona pela humildade e transparência ao abordar assuntos espinhosos que ainda trazem conseqüências para muitos grandes grupos e nomes catarinenses. Saul participou da gestão da Perdigão entre 1980 e 1992, quando acionistas majoritários assumiram a presidência do grupo. Tudo isso em meio ao falecimento de Saul Brandalise, pai e um dos fundadores da companhia. Tudo isso não só não acabou com os sonhos de Saul, como provocou uma verdadeira revolução nos seus valores e nas suas percepções de vida. Hoje, é muito mais crente na sua intuição e no seu “eu interior”. “Algumas coisas marcaram a minha vida e me fizeram mudar tanto a minha forma de administrar quando a minha forma de ver a vida”, conta. Todas as áreas do atual grupo presidido por Saul têm fontes de água, pedras e objetos que, segundo sua crença, fazem com que tudo flua mais facilmente e as pessoas trabalhem inspiradas. “Hoje, acredito que, assim como as pessoas, as empresas têm sete chacras – centros de força que captam todas as energias e as distribuem pelo corpo”. OS CHACRAS DA EMPRESA O chacra que representa o topo da pirâmide empresarial, para Saul, é o presidente da empresa. “Ele representa a intuição. No corpo humano, é quem representa as decisões que regem todo o resto do corpo”, afirma. “Mas é importante ressaltar que um cérebro sem um corpo não pode fazer nada”. O presidente do Grupo Barriga Verde diz que, por isso, é tão importante que os gestores conheçam seu eu interior, para que possam ver com clareza suas intuições e segui-las da melhor maneira. Este chacra é representado pela cor branca. A segunda faixa da pirâmide, que representa a vice-presidência ou a diretoria, é a terceira visão. “São eles os responsáveis por registrar e avaliar as decisões tomadas, participando efetivamente da gestão e das mudanças”, coloca. “Facilita o papel do presidente em ver as coisas de forma clara e a mudar o que precisa ser mudado”. A faixa azul da pirâmide, chacra da criatividade, representa a comunicação na empresa. Para Saul, as reuniões, e-mails e conversas têm um papel fundamental nas empresas, especialmente quando se trata de novas idéias. “Só uma empresa que ouve as sugestões e idéias de seus colaboradores de forma eficiente será bem sucedida”. O setor de vendas é o quarto chacra. No corpo humano representado pelo coração e pelo sistema cardíaco, é ele que dá ritmo a empresa. “Todas as decisões a respeito de novidades tem nesse chacra um aspecto importantíssimo”, afirma. Segundo a crença, é ele quem dá saúde e vitalidade ao corpo físico. A quinta faixa representa a estrutura técnica da empresa. Computadores, máquinas e, no caso da TVBV, câmeras. São eles os responsáveis pela propagação e percepção das energias da empresa. A cor representativa do chacra é a amarela. Os funcionários são representados pela sexta faixa. Responsável pela sustentação e pelo bom funcionamento de todas as outras, são eles quem manifestam opiniões sobre o que é criado, o que é decidido e o que é implantado. “Os funcionários são os melhores termômetros de gestão da empresa”, afirma Saul. “Se esse chacra for bem desenvolvido, auxiliará no funcionamento de todos os outros”. A base da pirâmide, e sétimo chacra, representa na empresa as condições mínimas de funcionamento: água, luz, prédios, carros. “São esses recursos que funcionam como fomentadores de todos os outros”, finaliza. O JATO E AS RELAÇÕES Saul exemplifica o poder que tinha quando era presidente da Perdigão pela utilização do jato particular para locomoção para feiras e eventos da empresa. “Solicitava o jato para uma reunião na Europa em um dia, no outro lá estava ele. Cheguei ao ponto de ter roupas minhas na aeronave”, conta. “Tudo isso me afastava muito da realidade de muita gente, e chamava muito a atenção daqueles que queriam amigos que lhes dessem benefícios”. Esse foi um dos maiores baques de Saul. “Descobri que não tinha amigos, tinha pessoas interessadas nos benefícios que eu podia dar”, afirma. Uma das situações que ele usa para falar do que ele define como “puxa-sacos” eram as pescarias que ele organizava no Mato Grosso. “Todos eram meus amigos, claro. Íamos de avião pra lá, não nos incomodávamos com absolutamente nada”, conta. “Ter um amigo que pudesse proporcionar esse tipo de coisa era muito bom, é claro”. Quando se está numa situação de poder, Saul diz que a vaidade não permite que a verdade sobre as relações esteja a frente dos olhos. “Não importa se a amizade é falsa e todos percebem isso. Você acha que todos gostam de você e te admiram pelo que você é”, afirma. O aprendizado com essas pessoas, que desapareceram quando perderam as facilidades que Saul podia oferecer, o tornou muito mais atento a esse tipo de relação. “Hoje eu sou especialista em puxa-sacos. Identifico de longe”, diz. SEQÜESTRO DOS FILHOS: O SURGIMENTO DE UM NOVO HOMEM Quando comentamos sobre o seqüestro dos dois filhos, que aconteceu em abril de 1988, Saul é categórico. “Foi um fato marcante na minha vida, importantíssimo. Não gostaria que acontecesse novamente, mas acredito que aconteceu na hora certa”, afirma. Saul e o irmão Flávio Brandalise estavam em São Paulo (SP) a negócios quando foram comunicados de um assalto à sua casa, em Videira. “Quatro homens entraram na minha casa, renderam a minha ex-esposa e meus filhos”, conta. “Depois de pegar alguns utensílios de valor, pediram que ela arrumasse uma maleta com roupas dos meninos”. Quando soube, Saul afirma que “jamais sentiu uma dor tão intensa”. Foram sete dias. Sete dias em que os filhos de Saul estiveram sob o poder dos bandidos, que exigiam um milhão de dólares em moeda norte-americana. “Me endividei, consegui um dinheiro que eu não tinha, mas eu ia reaver meu maior patrimônio, que eu descobri que eram meus filhos”, relembra. A operação foi realizada com sucesso e as negociações fizeram com que os seqüestradores deixassem os filhos de Saul num hotel de beira de estrada, vivos. Em toda essa situação, Saul conta que descobriu alguns dos verdadeiros valores da vida. “Minha vida se transformou quando percebi que relações de puxa-saquismo, dinheiro e poder não eram nada perto das pessoas que temos e do nosso eu interior”, afirma. AUTO-ACEITAÇÃO Depois de diversos problemas enfrentados por Saul na vida pessoal e profissional, ele encontrou no espiritualismo uma forma de se encontrar e aceitar algumas das coisas que aconteceram no tumultuado período em que estave a frente da Perdigão. “Eu não aceitava vários dos erros que tinha cometido, pensava que como presidente de uma corporação daquele tamanho não teria direito a errar”, conta. “Foi quando comecei a prestar atenção nas minhas intuições e em como eu via várias coisas de uma forma errada”, comenta. “Minha vida mudou depois que eu passei a me conhecer e ter como prioritários valores e pessoas que antes eu não via como deveriam”. FORMAÇÃO E CULTURA Para Saul, a cultura é o maior bem que as pessoas podem ter. Ele afirma que “o maior bem que as empresas podem fazer por seus funcionários é dar a eles a possibilidade de conhecer outros países e outras culturas”. O que é uma realidade confirmada pelos colaboradores do atual grupo presidido por ele. A formação acadêmica de Saul passa por vários países diferentes, fato que, segundo ele, foi muito importante para que exemplos internacionais pudessem compor a sua forma de gerir os negócios. É bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade Metropolitana Unidas (FMU) em São Paulo, pós-graduado em Marketing pelo Insead Fontainebleau (Institut Européen D’Administration Des Affaires) na França e também tem no currículo o curso de Administração Superior pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em Turin, na Itália. AS GRANDES IDÉIAS Muitos não sabem, mas o Chester é uma invenção catarinense. A ave, que é um frango modificado geneticamente, foi criada pela Perdigão. “Lembro-me do dia em que escolhemos o nome da ave”, relembra. “Estávamos todos reunidos na sala do Conselho, quando eu lembrei da palavra peito em inglês (chest). Colocamos as letras “e” e “r” no final para simbolizar que ele seria a ave com o maior peito”. Segundo Saul, foi também a Perdigão quem teve a primeira idéia do que hoje se transformariam nos saches de maionese e ketchup que são distribuídos. “Quando ainda fabricávamos o Pirulixo (pirulito de salsicha lançado pela Perdigão), tivemos a idéia de colocar os dois ingredientes junto com o nosso produto”, afirma. “Foi então que auxiliamos no desenvolvimento de pequenos saquinhos, onde poderiam ser armazenados e distribuídos pequenas quantidades”. EMPRESARIADO CATARINENSE Saul define Santa Catarina como um grande paradoxo. “Empresas catarinenses de qualquer mercado estão classificadas entre as melhores do mundo, são as que mais faturam e que mais geram receita tanto para o governo quanto para a população”, afirma. “Não consigo entender como todo esse montante não se reverte em melhorias efetivas na qualidade de vida do povo”. Ele acredita ainda que uma das ações que geraria mais resultado no nosso estado é o investimento na preparação do empresariado local. “Já temos grandes empresas e grandes talentos, capacitar esse profissional trará certamente resultados muito positivos”, afirma. PRESENTE E FUTURO Hoje, Saul preside a Central Barriga Verde de Comunicação, que conta com uma emissora de TV, uma produtora de vídeo e 15 emissoras de rádio que, juntas, atingem um público estimado de cinco milhões de telespectadores e dois milhões de ouvintes. Ao ser perguntado sobre uma possibilidade de retorno a empresa que foi de seu pai, Saul é categórico: “nem por um milhão de dólares”. “Os meus valores mudaram muito”, diz. “Torço por um futuro excelente para a Perdigão. Hoje, quando passo na frente dela, vejo uma empresa de sucesso”. Fonte: Noticenter



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