
Dados oficiais obtidos pelo JBTV apontam redução de profundidade em canais, bacias de evolução e berços e expõem uma limitação que alcança praticamente toda a rota dos navios no Complexo Portuário
Documentos oficiais da Delegacia da Capitania dos Portos em Itajaí, obtidos pelo JBTV, revelam a dimensão da perda de profundidade enfrentada pelo Complexo Portuário de Itajaí e Navegantes. As reduções não estão concentradas em um único ponto: atingem canais de acesso, bacias de evolução e berços dos dois terminais.
Na comparação com os parâmetros anteriores apresentados, as perdas variam de 90 centímetros a 1,60 metro. O problema ganha dimensão porque afeta diferentes etapas do percurso necessário para que um navio entre no complexo, realize suas manobras, atraque e retorne ao mar.
A maior diferença aparece no berço 4 do Porto de Itajaí, onde a referência anterior era de 13,80 metros e a nova Menor Profundidade Observada (MPO) foi estabelecida em 12,20 metros — perda de 1,60 metro.
Nos berços 1 e 2 de Itajaí, a profundidade passou de 13,80 para 12,30 metros, redução de 1,50 metro. No berço 3, caiu de 13,70 para 12,20 metros, também uma diferença de 1,50 metro.
Na área de atracação da Portonave, em Navegantes, a MPO ficou em 12,10 metros, diante de um parâmetro anterior de 13,50 metros: redução de 1,40 metro.
Restrição também está nos canais
O problema começa antes da chegada aos terminais. No canal externo, a profundidade passou de 14 para 12,90 metros. No canal interno, de 13,60 para 12,50 metros. Em ambos, a redução foi de 1,10 metro.
Na Bacia de Evolução 1, utilizada para manobras das embarcações, a referência caiu de 13,60 para 12,20 metros, diferença de 1,40 metro. Na Bacia de Evolução 2, passou de 13,50 para 12,60 metros, redução de 90 centímetros.
É justamente a sequência dessas limitações que amplia a preocupação. O navio precisa atravessar os canais, chegar à área de evolução, realizar a manobra e alcançar o berço. O ponto mais restritivo pode acabar condicionando toda a operação.
Os documentos não estabelecem que o complexo esteja inoperante, mas formalizam profundidades menores em praticamente toda a infraestrutura aquaviária utilizada pelos navios.
Menos profundidade, menos flexibilidade
A redução pode obrigar embarcações de maior calado a operar com menos carga, depender de condições específicas de maré ou ter a escala reavaliada pelo armador.
Não existe uma conversão direta entre centímetros de profundidade perdidos e quantidade de contêineres que deixa de ser transportada. Isso depende do navio, plano de carga, estabilidade, maré e condições de segurança. Mas a consequência operacional é clara: quanto menor a profundidade disponível, menor a margem para receber embarcações com maior calado e mais carregadas.
O novo documento também cancela determinações anteriores relacionadas a uma folga adicional abaixo da quilha. Isso, porém, não representa recuperação física das profundidades. Os valores de MPO estabelecidos continuam sendo as referências operacionais e, conforme o documento, permanecem válidos até 21 de novembro de 2026 ou até a apresentação de novos levantamentos batimétricos.
Dragagem passa a ser decisiva
A recuperação depende diretamente da dragagem e de novas batimetrias que comprovem a recomposição das profundidades.
O Rio Itajaí-Açu transporta sedimentos, e períodos de chuva intensa e correnteza elevada podem ampliar o assoreamento. Sem a recuperação, cresce a dependência das marés e diminui a previsibilidade das operações.
E o problema ultrapassa os limites dos terminais. Restrições podem provocar reprogramações, dificuldades no fluxo de cargas, atrasos de embarques e até omissões de escala.
Para exportadores, isso pode significar mercadorias chegando mais tarde aos clientes internacionais. Na importação, uma escala transferida para outro porto pode aumentar distâncias, prazos e custos logísticos.
O impacto potencial alcança armadores, terminais, transportadoras, trabalhadores portuários, operadores logísticos, indústrias, exportadores e importadores.
Os documentos obtidos pelo JBTV mostram que a situação vai além das paralisações temporárias provocadas pela correnteza. Itajaí e Navegantes enfrentam uma perda de profundidade que se distribui pelos canais de acesso, áreas de manobra e berços — justamente os pontos que sustentam toda a operação do complexo portuário.