domingo, 09 de agosto de 2026
07/08/2025

ARTIGO: A engrenagem tarifária entrou em movimento


Bom dia, pessoal
 
O dia já começa com os mercados globais sob o peso da agenda corporativa carregada. Nos Estados Unidos, por exemplo, os holofotes se voltam para a divulgação dos balanços de gigantes como Walt Disney e McDonald’s — seria o suficiente para influenciar o humor dos mercados. Além disso, aguardamos discursos de três membros do Federal Reserve, que podem oferecer pistas adicionais sobre a trajetória dos juros. Para apimentar ainda mais o ambiente, Donald Trump promete anunciar ainda nesta semana o nome que substituirá Adriana Kugler no Fed, com forte expectativa de que a escolha reforce a ala mais dovish do comitê, favorecendo cortes na taxa de juros.
Enquanto isso, as bolsas asiáticas encerraram a sessão majoritariamente no azul, em clara dissociação do recuo observado em Nova York ontem — queda essa provocada por sinais de enfraquecimento no setor de serviços americano. Na Europa, os índices avançam com investidores voltando às compras após o recuo recente, mesmo diante de resultados corporativos mistos e da ameaça renovada de tarifas por parte dos EUA. 
Já o petróleo retoma fôlego após bater mínimas de cinco semanas, impulsionado por estoques americanos menores do que o esperado e pelo recrudescimento das tensões geopolíticas. No Brasil, entra oficialmente em vigor a tarifação imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Uma nova rodada do jogo comercial que, embora esperada, obriga o investidor a ajustar seu radar — o protecionismo americano pode ter implicações mais amplas do que os primeiros movimentos deixam transparecer.
 
00:51 — As tarifas saem do papel
 
Por aqui, o Ibovespa encerrou o pregão de ontem em leve alta, mesmo sob o pano de fundo tenso da decisão de colocar o ex-presidente Jair Bolsonaro em prisão domiciliar. A reação do mercado foi morna — o que, por si só, já é revelador. Como já pontuei, não há um efeito direto e imediato entre a prisão de Bolsonaro e o desempenho dos ativos locais, mas isso não significa que a situação seja irrelevante. Pelo contrário: o desconforto institucional gerado, somado ao potencial de represálias externas e de reconfiguração das forças políticas rumo a 2026, pode reintroduzir volatilidade ao radar.
A decisão, vale destacar, provocou incômodo dentro do próprio Supremo Tribunal Federal. Ministros demonstraram desconforto com a condução do processo por Alexandre de Moraes, que teria, ao isolar-se politicamente, colocado em risco a credibilidade do próprio colegiado. A possibilidade de recuo da medida, nesse caso, não seria apenas uma derrota pessoal, mas um abalo à autoridade da corte como um todo — ainda que, para observadores jurídicos, a prisão seja juridicamente frágil, politicamente desnecessária e operacionalmente insustentável. Há até quem sugira que o ex-presidente teria deliberadamente forçado sua detenção, como estratégia para capitalizar politicamente o desgaste do judiciário, reforçando o clima de tensão.
A situação complica-se ainda mais com a sombra da Lei Magnitsky, que segue pairando sobre os tribunais brasileiros. O temor de sanções internacionais pode constranger votos futuros no plenário do STF. E, como se não bastasse, chegamos ao aguardado 6 de agosto: data em que as tarifas comerciais dos EUA contra o Brasil finalmente entram em vigor. O impacto, como já alertei, deve ser bem menor do que os alarmismos iniciais sugeriam — mas não irrelevante. O governo, por ora, aposta suas fichas na via diplomática, buscando ampliar a lista de isenções e suavizar as alíquotas punitivas. Fernando Haddad, inclusive, se encontrará na próxima quarta-feira com Scott Bessent, um dos principais interlocutores do time de Trump para os temas comerciais.
Outras frentes estão em análise, mas nenhuma delas é simples ou gratuita: abertura de novos mercados (processo lento e custoso), estímulos ao consumo doméstico, crédito subsidiado, compras públicas e programas de renúncia fiscal emergencial. Parte disso pressiona, claro, o já apertado espaço fiscal — e exige escolhas que o governo vinha tentando adiar. Na agenda, o destaque doméstico é a fala de Gabriel Galípolo, que pode reforçar o tom hawkish da última ata do Copom de ontem. Também digerimos o resultado do Itaú, que veio em linha com as expectativas, mas animou os investidores com as ações em Nova York. Vale lembrar que, lá fora, os ativos de países emergentes seguem se beneficiando da crescente expectativa de cortes de juros nos EUA ainda neste ano. Em suma, o Brasil dança conforme a música global — mesmo que o palco doméstico esteja, no momento, especialmente instável por questões políticas.
 
01:49 — Uma atividade realmente mais fraca
 
Os dados mais recentes da economia americana continuam entregando um retrato ambíguo, mas com tonalidades sombrias — especialmente no setor de serviços, epicentro do dinamismo doméstico. O PMI até tentou animar, mas bastou olhar para o ISM, tradicionalmente mais robusto, para o otimismo esfriar: o índice recuou para 50,1, perigosamente perto da linha divisória que separa crescimento de contração. Ainda mais preocupantes são os subíndices — como novos pedidos, emprego e atividade empresarial — flertando com as mínimas do ciclo. O mercado de trabalho, por sua vez, reforça o mau presságio: pelo segundo mês consecutivo, o índice de emprego do ISM de serviços caiu, depois dos dados de payroll decepcionaram com a criação de apenas 73 mil vagas na última sexta-feira, muito concentradas em saúde. Setores como indústria, lazer e hospitalidade seguem estagnados, alimentando o temor de que os EUA estejam escorregando para um terreno pantanoso: crescimento fraco com inflação persistente — o velho fantasma da estagflação rondando outra vez.
A reação dos mercados foi fiel ao diagnóstico: queda generalizada nos principais índices americanos, à medida que se acumula o desconforto com a piora dos fundamentos e a escalada do barulho geopolítico. Donald Trump, em sua conhecida coreografia de imprevisibilidade, voltou a pressionar o tabuleiro comercial, ameaçando novas tarifas contra a Índia e mirando setores sensíveis como farmacêutico e semicondutores. As conversas com a China continuam em banho-maria, e o prazo de 12 de agosto para a ampliação das tarifas segue no radar — com chances reais de um impasse explosivo (há chance de postergação). A indefinição sobre a política comercial, somada à fragilidade do mercado de trabalho, compõe um ambiente ruidoso, instável e de visibilidade reduzida. Enquanto isso, a temporada de balanços corporativos avança, com nomes de peso como Walt Disney, McDonald’s e Uber tentando resgatar o humor dos investidores nesta quarta-feira — tarefa ingrata num cenário onde a volatilidade parece ter vindo para ficar.
 
02:35 — E por falar em tensão comercial… 
 
As tensões comerciais seguem em escalada, alimentadas por novas ameaças do presidente Donald Trump — que agora volta sua mira para países que ainda importam petróleo da Rússia. A proposta em discussão prevê tarifas adicionais sobre produtos oriundos dessas nações, elevando o grau de incerteza política e regulatória para qualquer empresa que dependa do mercado americano. Nesse cenário de imprevisibilidade institucional, as múltiplas camadas de tarifação tornam o sistema comercial não apenas mais opaco, mas também mais caro e disfuncional, minando a previsibilidade necessária para decisões de investimento e operação de longo prazo.
Como se não bastasse, Trump resolveu reacender seu projeto de reindustrialização pela força bruta, mirando agora o setor farmacêutico. Em entrevista à CNBC, prometeu anunciar em breve tarifas escalonadas sobre medicamentos importados: começariam “pequenas”, mas subiriam para 150% em até 18 meses e poderiam alcançar até 250% — em uma tentativa declarada de forçar a produção de medicamentos em solo americano. A indústria, naturalmente, soou o alarme: medidas dessa magnitude teriam efeito direto sobre os preços ao consumidor e poderiam comprometer seriamente a capacidade de financiar inovação e pesquisa. E a lista de alvos não para por aí. Os semicondutores, cuja cadeia global depende fortemente de Taiwan, também entraram no radar tarifário — acrescentando combustível a uma política comercial errática.
 
03:26 — A sucessão no Fed
 
Donald Trump afastou oficialmente a possibilidade de nomear Scott Bessent — atual secretário do Tesouro — para a presidência do Federal Reserve. A justificativa, segundo o próprio presidente, foi simples: Bessent “prefere continuar onde está”. O gesto, embora apresentado com aparente leveza, elimina do páreo um nome com significativa influência política e econômica, sugerindo que a sucessão de Jerome Powell, cujo mandato se encerra em maio do próximo ano, está longe de ser trivial. Permanecem na disputa figuras ideologicamente mais alinhadas à cartilha de Trump, como o atual governador do Fed, Christopher Waller; o diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett; o ex-diretor da instituição Kevin Warsh; e o economista Kevin Harsh. Nomes diferentes, mesma afinidade: todos vistos como possíveis agentes de uma inflexão institucional profunda. A questão de fundo, portanto, não é apenas “quem será”, mas “quão independente será”. Acredito que Kevin Warsh seja o favorito.
Porque, para além da troca de comando, o que se delineia é um projeto de reengenharia do próprio Fed. A proposta vai muito além da redução de juros — foco das críticas persistentes de Trump a Powell. O plano inclui cortes de pessoal, a reorganização dos bancos regionais e, sobretudo, uma redefinição da missão da autoridade monetária: o Fed passaria a operar sob nova lógica, mais atrelada aos interesses da Casa Branca do que ao manual ortodoxo de política econômica. Kevin Warsh chamou isso, sem rodeios, de uma “mudança de regime”. O efeito colateral seria imediato: o rompimento da coesão institucional do comitê e a politização de uma instituição historicamente guiada pela tecnocracia. O FOMC se aproximaria, assim, do modelo da Suprema Corte americana — polarizado, instável e sujeito a guerras de nomeações. Com apenas duas cadeiras disponíveis para nomeação no próximo mandato, a sucessão de Powell pode transformar-se em peça-chave não apenas da política monetária, mas da própria batalha eleitoral e da estabilidade dos mercados.
 
04:17 — Vento favorável?
 
O aumento das tarifas comerciais por funcionar, sim, como um paliativo fiscal para os Estados Unidos. Ao inflar a arrecadação, ajuda a mascarar temporariamente a fragilidade das contas públicas, oferecendo um alívio momentâneo em meio ao agravamento estrutural do quadro fiscal. Mas a anestesia tem prazo de validade. As projeções do CBO (Escritório de Orçamento do Congresso) seguem alarmantes, com a dívida pública podendo ultrapassar 160% do PIB até 2054 — uma trajetória difícil de ignorar, mesmo para os otimistas de plantão. Nesse cenário, a gestora Apollo ensaia uma provocação mais esperançosa: e se a inteligência artificial (IA), devidamente implementada, for capaz de impulsionar a produtividade a ponto de estabilizar a dívida em torno de 120% do PIB, sem a necessidade de apertos fiscais draconianos?
 
O argumento se ancora num mecanismo bem conhecido dos ciclos de transformação tecnológica: ganhos de produtividade reduzem o custo unitário do trabalho, arrefecem pressões inflacionárias e abrem espaço para juros mais baixos — o que, por sua vez, estimula o crescimento econômico e amplia a base arrecadatória. Esse encadeamento virtuoso pode fazer a relação dívida/PIB cair naturalmente, sem cortes agressivos de despesas nem aumentos de impostos. Os dados da Apollo ilustram bem essa tese: com produtividade crescendo entre 0,9% e 2,0% ao ano, a dívida poderia recuar de 117% para algo entre 99% e 77% do PIB. E há precedente: nos anos 1990, o próprio CBO superestimou o endividamento justamente por subestimar a força da produtividade. Em outras palavras, se a IA cumprir parte do que promete, talvez os EUA consigam escapar da armadilha fiscal com uma solução elegante — e menos indigesta que os tradicionais pacotes de austeridade. Mas o futuro ainda está aberto…
 
05:02 — Os gigantes
 
Nos últimos dias, os resultados estrondosos das gigantes de tecnologia não apenas fizeram suas ações decolarem — eles reacenderam o entusiasmo em torno de todo o complexo de inteligência artificial. De forma consistente, essas empresas têm superado as expectativas do mercado, impulsionadas sobretudo por suas capacidades em IA. E o raciocínio, embora simples, é implacável: se a IA está trazendo retorno, nada mais natural do que reinvestir ainda mais nela — especialmente agora, com ajustes fiscais recentes tornando esse movimento mais fácil de financiar. Quando o dinheiro está fluindo, a ambição cresce. E, no caso da IA, a árvore de investimentos está estendendo seus galhos cada vez mais alto, quase tocando o sol.
Vale notar que as últimas diretrizes operacionais anunciadas por duas empresas de hiperescala — as chamadas “hyperscalers” — nem sequer foram totalmente precificadas nas estimativas de mercado. Mas o recado já foi dado...
 


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Redução da taxa de juros ainda é insuficiente, avaliam entidades

O quarto corte consecutivo na Taxa Selic, definido nesta quarta-feira (5) pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), foi bem recebido por agentes econômicos, mas ainda é considerado insuficiente e restritivo para a expansão do setor industrial.

Em nota, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) ressaltou que a continuidade do ciclo de redução da Selic representa um sinal positivo para a atividade econômica, mas que o nível ainda elevado da taxa mantém o crédito caro e atrasa investimentos.

"O elevado custo de capital posterga investimentos, dificulta a modernização produtiva e limita a capacidade das empresas brasileiras de ganhar produtividade e competir nos mercados interno e externo. Esse quadro se reflete no desempenho da indústria de transformação, que cresceu apenas 0,4% no primeiro semestre do ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)", disse a entidade.

Na mesma linha, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lembrou que os juros estão em patamar restritivo há 55 meses, e que Selic está 3,6 pontos percentuais acima da taxa calculada com base na Regra de Taylor, estimada em 10,4%. Esta regra permite calcular uma taxa de juros que proporcione o controle da inflação sem desestimular o crescimento da economia.

"A taxa de juros real, aproximadamente de 10%, supera com folga a taxa de equilíbrio estimada pelo próprio Banco Central, de 5%, indicando que há espaço para cortes mais expressivos na Selic, sem prejuízos no combate à inflação".

Entre as organizações de trabalhadores, a Força Sindical também classificou como insuficiente a redução de 0,25 ponto percentual na Selic. Para a central sindical, juros elevados encarecem o crédito, reduzem investimentos, desestimulam o consumo e comprometem a geração de empregos.

"Perdemos uma excelente oportunidade de promover uma redução drástica da taxa de juros, dar uma injeção de ânimo no setor produtivo e alavancar mais a economia", disse a entidade, em nota.

Copom 
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu nesta quarta-feira (5) em 0,25 ponto percentual a Taxa Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira, que passará de 14,25% para 14% ao ano.

Esta é a quarta vez consecutiva que o comitê reduz os juros. A decisão foi tomada em reunião na sede do BC, em Brasília.

Segundo a instituição, o novo ajuste gradual de menos 0,25 ponto é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta no próximo período.

Sobre o ambiente externo, o BC voltou a apontar o cenário de indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio e da incerteza sobre a política monetária em algumas economias avançadas.

Curso gratuito de Relacionamento Interpessoal e Trabalho em Equipe está com inscrições abertas em Itapema

A Prefeitura de Itapema, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Habitação, segue com as inscrições abertas para mais uma capacitação gratuita do programa Itapema Qualifica, realizado em parceria com o SENAC/SC. Desta vez, a oportunidade é para o curso de Relacionamento Interpessoal e Trabalho em Equipe, voltado para quem deseja aprimorar competências comportamentais cada vez mais valorizadas pelo mercado de trabalho.

A formação tem como objetivo desenvolver habilidades essenciais para o ambiente profissional, como comunicação eficiente, cooperação, resolução de conflitos, inteligência emocional e convivência em equipe. O conteúdo também aborda princípios de etiqueta social e profissional, comunicação assertiva e técnicas para fortalecer o relacionamento interpessoal, contribuindo para um ambiente de trabalho mais produtivo, respeitoso e colaborativo.

Durante as aulas, os participantes aprenderão sobre os fundamentos do trabalho em equipe, compreendendo como a colaboração, a confiança e a união de diferentes habilidades podem potencializar resultados. O curso também apresenta estratégias para administrar conflitos de forma construtiva, além de explorar os principais elementos do processo de comunicação, identificando fatores que podem facilitar ou dificultar o entendimento entre as pessoas.

Outro destaque da capacitação é o desenvolvimento da comunicação assertiva, habilidade que permite expressar opiniões, necessidades e ideias com clareza, respeito e objetividade, fortalecendo as relações profissionais e pessoais.

O secretário de Desenvolvimento Econômico e Habitação, Nicko Silva, destacou a importância das capacitações para a formação profissional da população. " O Itapema Qualifica oferece oportunidades gratuitas para que a nossa população desenvolva essas competências e esteja cada vez mais preparada para conquistar uma vaga no mercado ou crescer na carreira", afirmou o secretário.

Inscrições e aulas
As inscrições podem ser realizadas presencialmente na Casa da Cidadania, localizada na Rua 216, nº 155, em Meia Praia, das 8h às 17h, ou de forma online pelo site qualifica.itapema.sc.gov.br. As vagas são gratuitas e serão preenchidas por ordem de inscrição. As aulas acontecerão nos dias 18, 20, 25 e 27 de agosto, além de 1º de setembro, na EMEB Bento Elói Garcia, localizada na Rua 402 B, nº 100, no bairro Morretes.

Juros altos agravam dificuldades da indústria, pondera CNI

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera acertada a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. No entanto, pondera que os juros altos agravam as dificuldades da indústria e seguirão asfixiando empresas e famílias. 

“Não há justificativa compreensível para a manutenção da taxa de juros em um nível tão alto. A decisão do Banco Central piora a perspectiva para a indústria, já tão prejudicada pelas incertezas no cenário externo. Além disso, o crédito caro compromete gravemente a renda das famílias, que já apresentam níveis recordes de endividamento e inadimplência”, afirma Ricardo Alban, presidente da CNI. 

Juros continuam desproporcionais à trajetória da inflação
As expectativas de inflação apuradas pelo Boletim Focus vêm melhorando. Embora a projeção para o IPCA de 2026 seja de alta de 5,03%, as perspectivas para o índice em 2027 e 2028 continuam dentro do intervalo de tolerância da meta. Ao mesmo tempo, a inflação corrente vem perdendo força, o que deve continuar a ocorrer em julho. O IPCA-15, por exemplo, acumula alta de 4,52% em 12 meses até julho, resultado abaixo do observado no mês anterior (4,8%). Esses indicadores reforçam a leitura de acomodação das pressões de oferta e de demanda verificadas nos últimos meses. 

Além disso, a média dos núcleos de inflação de junho ficaram em 4,44% e apontam uma trajetória mais consistente com a meta de 3% da inflação, apesar da continuidade das incertezas geopolíticas e dos riscos climáticos.

Selic está 3,6 pontos percentuais acima do ideal
A CNI lembra que os juros estão em patamar restritivo há 55 meses. A Selic está 3,6 pontos percentuais acima da taxa calculada com base na Regra de Taylor — estimada em 10,4%. Esta regra permite calcular uma taxa de juros que proporcione o controle da inflação sem desestimular o crescimento da economia. A taxa de juros real, aproximadamente de 10%, supera com folga a taxa de equilíbrio estimada pelo próprio Banco Central, de 5%, indicando que há espaço para cortes mais expressivos na Selic, sem prejuízos no combate à inflação. 

Real valorizado contribui para segurar a inflação 
Cabe destacar que, em um cenário marcado por tensões geopolíticas, o país segue atraindo investidores internacionais interessados no elevado diferencial de juros entre o Brasil e as economias desenvolvidas. O país continua oferecendo retorno atrativo para investidores internacionais, situação que contribui para a apreciação do real, que nos últimos doze meses se valorizou 8,6% frente ao dólar, o que ajudou a arrefecer o ímpeto inflacionário. 

Juros altos elevam endividamento e espremem margens
Consulta realizada pela CNI mostra que os juros devem trazer forte pressão financeira sobre o setor nos próximos três meses. Mais da metade das empresas (53%) prevê aumento na necessidade de financiamento para contas a pagar; 47% esperam pressão sobre contas a receber e 42% sobre estoques — sinais claros de elevação da necessidade de capital de giro. 

Entre as empresas que demandam mais capital, mais de 55% projetam encarecimento do crédito, e cerca de 39% devem ampliar o endividamento bancário. Como efeito direto do aperto, 58% antecipam redução das margens líquidas, comprometendo rentabilidade e capacidade de investimento. Para conter perdas, 51% tentarão manter preços para não perder competitividade frente a importados, enquanto 37% já planejam repassar custos ao valor final, o que pressiona a inflação. Segundo os empresários, os juros atuais funcionam como um “imposto invisível” que inviabiliza investimentos, freia contratações e desvia recursos para aplicações financeiras em vez da produção.

Taxas de juros e endividamento das famílias
O elevado nível de juros no crédito livre também encarece o refinanciamento das dívidas familiares. O resultado é o endividamento em patamar crítico e o comprometimento da renda, reduzindo recursos para consumo essencial e ampliando o risco de superendividamento. O "Desenrola 2.0" trata, sobretudo, o sintoma, sem atacar causas estruturais, como a baixa educação financeira e o elevado nível das taxas de juros. 

Aumento de etanol na gasolina divide opiniões sobre impacto em carros

Aprovado recentemente pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% (E32) reacendeu o debate sobre os efeitos da medida tanto para o bolso dos consumidores como para o funcionamento dos veículos.
Contrário à mudança, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação civil pública para suspender a decisão do CNPE até que estudos específicos comprovem a segurança da nova mistura para os motores da frota brasileira.

Já a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a ampliação da mistura fortalece a segurança energética do país, reduz a dependência de gasolina importada e ajuda a conter preços ao consumidor.

MPF
De acordo com o MPF, os estudos que embasaram a nova configuração da gasolina (com 32% de etanol) não demonstraram, de forma conclusiva, os impactos do E32 sobre durabilidade de componentes, emissões, autonomia e compatibilidade com diferentes tipos de veículos.

Na ação, o MPF aponta riscos de corrosão de peças, desgaste de bombas de combustível e falhas em sistemas de injeção eletrônica, especialmente em motocicletas, veículos antigos e modelos importados.

Os procuradores argumentam, ainda, que os estudos usados foram elaborados para o E30 e não para validar especificamente a adoção permanente do E32.

Por fim, o MPF argumenta que faltam estudos sobre impactos ambientais indiretos e pede perícia técnica independente.

Unica
Para a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), o aumento do percentual de etanol na gasolina é algo positivo porque favorece a segurança energética do país, além de reduzir a necessidade de importação de gasolina.

Além disso, acrescenta a Unica, não há evidências, nos resultados obtidos, de impactos sobre desempenho, dirigibilidade, partida a frio, consumo, emissões ou funcionamento dos veículos em decorrência da adoção do E32.

A entidade lembra que o E32 foi avaliado em estudos coordenados pelo Ministério de Minas e Energia e realizados pelo Instituto Mauá de Tecnologia. Os testes foram feitos em veículos leves e motocicletas movidos a gasolina, fabricados entre 1994 e 2024.

Mesmo os veículos mais antigos avaliados não apresentaram impactos em partida, marcha lenta, aceleração ou dirigibilidade com a utilização do E32, acrescentou ao destacar que não foram identificados impactos relevantes em desempenho, consumo, dirigibilidade, partidas a frio ou funcionamento dos motores.

Além dos aspectos técnicos, a entidade sustenta que o aumento da participação do etanol pode beneficiar os consumidores ao reduzir a dependência de gasolina importada.

A estimativa é que o país deixe de importar cerca de 800 milhões de litros de gasolina por ano. Segundo a Unica, sem a presença do etanol no mercado nacional, o custo dos combustíveis teria aumentado em R$ 8 bilhões apenas nos últimos três meses.

Mais de 40% das indústrias migraram para o mercado livre de energia em 2 anos, aponta CNI

Pesquisa inédita da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 41% das indústrias brasileiras migraram para o mercado livre de energia desde 2024, quando entrou em vigor a norma do Ministério de Minas e Energia (MME) que ampliou o acesso dos consumidores ao ambiente de livre contratação. De acordo com os dados, 73% dos empresários que trocaram o mercado cativo pelo livre notaram redução dos custos com as tarifas de energia elétrica.

A Sondagem Especial Indústria e Energia 2026, divulgada nesta quinta-feira (30) pela CNI, revela que 30% das empresas consideram a migração para o mercado livre como a principal estratégia para reduzir o custo da conta de luz. Os dados apontam ainda que, em meio a um cenário de oscilações no setor elétrico impulsionado pela alta demanda global e por conflitos geopolíticos, o interesse das empresas pelo mercado livre de energia aumentou.

Apesar desse avanço, ainda há grande potencial para expansão desse mercado. Entre as empresas atendidas em baixa tensão que permanecem no mercado cativo, 37% demonstram interesse em migrar para o mercado livre. Os dados reforçam que a abertura gradual do setor tende a ampliar a competitividade das indústrias.

A pesquisa revela que, entre as grandes indústrias atendidas em alta tensão, 63% já compram energia no mercado livre. Entre as pequenas empresas, 22% informam atuar nesse ambiente de contratação, enquanto 45% permanecem no mercado cativo.

Os dados indicam também que 79% das indústrias utilizam a energia elétrica como principal insumo energético em seus processos produtivos. O custo da energia é apontado pelos industriais como um dos principais desafios do setor.

Confira a pesquisa: https://static.portaldaindustria.com.br/portaldaindustria/noticias/media/filer_public/43/8d/438d1f97-f43e-435f-83e2-f0a4118f1646/sondagem_cni_industria_e_energia_2026.pdf

Sondagem CNI Indústria e Energia 2026.pdf(6,1 MB)
“A pesquisa mostra a importância do custo da energia para a competitividade da indústria e que o caminho escolhido pelas empresas para diminuir as tarifas passa pela migração ao mercado livre”, destaca o gerente de Energia da CNI, Roberto Wagner Pereira.

“Além disso, precisamos melhorar o sinal de preços com a adoção de tarifas dinâmicas, que possam variar de acordo com a geração, o horário e a demanda dos consumidores. Associado a isso é imprescindível revisarmos a grande quantidade de subsídios que encarecem a conta de energia”, acrescenta o gerente da CNI.

83% das empresas dizem que custo da energia é importante para a competitividade
Segundo a sondagem, 62% dos industriais indicaram que houve algum impacto da variação dos preços de energia elétrica nos últimos 12 meses. Para 83% deles, a conta de luz é um fator imprescindível para a competitividade. Outros 67% consideram que o aumento das tarifas impacta diretamente os custos de produção.

O aumento da conta de luz foi apontado por 3% das empresas como alto (acima de 30% de reajuste). Para 20%, o impacto foi considerado médio (acima de 10% de aumento), enquanto para 39%, o impacto foi considerado baixo (abaixo de 10% de aumento).

Quase duas em cada três empresas (64%) investiram em alguma forma de economizar energia ou na diminuição dos custos tarifários. A principal opção apontada foi a migração para o mercado livre, apontada por 30% das indústrias.

Investimentos em autogeração e eficiência energética
Já os investimentos em autogeração e ações de eficiência energética foram elencados como alternativas para 13% das empresas respondentes. Outros 28% não tomaram nenhuma medida para otimização energética de seus processos produtivos.

O setor de produtos de borracha foi o que mais investiu na opção de autogeração (25% das empresas) e na migração para o mercado livre (38% das empresas). O setor que mais migrou para o mercado livre foi o calçadista (47% das empresas). O setor de equipamentos de informática e produtos eletrônicos, por sua vez, foi o que mais investiu em eficiência energética (25% das empresas).

A Sondagem Especial Indústria e Energia foi realizada em abril pela CNI, junto a 1.498 indústrias dos setores extrativo e de transformação, sendo 601 pequenas, 529 médias e 368 grandes empresas.

Energia cara: quem vai pagar essa conta?

A energia elétrica é o principal insumo da indústria brasileira e um fator decisivo para a competitividade da economia. O Brasil reúne condições privilegiadas: tem uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com mais de 85% da geração proveniente de fontes renováveis, e vem ampliando rapidamente a participação da energia solar e eólica. Ainda assim, convivemos com um paradoxo difícil de justificar. Produzimos energia a baixo custo, mas pagamos uma das tarifas mais altas do mundo.

A principal explicação para essa distorção não está no custo de geração, transmissão ou distribuição, mas no crescimento contínuo dos encargos setoriais, subsídios e tributos embutidos na conta de luz. Hoje, cerca de 40% da tarifa corresponde a impostos e encargos setoriais, percentual que compromete a competitividade da indústria, reduz investimentos e encarece a produção nacional. A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), principal mecanismo de financiamento de subsídios do setor, ilustra essa escalada: seu orçamento passou de R$ 14 bilhões em 2013 para mais de R$ 52 bilhões previstos para 2026.

O Brasil segue um caminho que vai na contramão da racionalidade e do razoável. Ao longo dos anos, diferentes políticas públicas foram incorporadas à tarifa de energia por meio de encargos criados, muitas vezes, com objetivos legítimos. O problema é que esses mecanismos se acumularam sem revisões periódicas, transformando-se em um conjunto de subsídios permanentes que pesa sobre consumidores e empresas. Criar encargos tornou-se politicamente mais fácil do que financiá-los pelo orçamento público, reduzindo a transparência e perpetuando distorções econômicas.

A facilidade política para criar encargos contrasta com a enorme dificuldade para sua revisão ou eliminação. Essa é a razão pela qual se prefere garantir subsídios via encargos, que não passam pelo escrutínio político na análise do orçamento público, em detrimento do uso de recursos orçamentários. Assim, os encargos setoriais acabam financiando políticas e subsídios que tendem a se perpetuar, mesmo quando perdem a eficiência econômica.

A redução desse peso sobre a conta de luz é uma das principais propostas da indústria brasileira para o próximo mandato presidencial. Este tópico está destacado como a prioridade no documento que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) entregou aos pré-candidatos à Presidência da República, em evento realizado em junho.

No fim do século passado, nosso sistema elétrico era considerado um dos mais eficientes do mundo. Os grandes reservatórios hidrelétricos e um sistema interligado por uma ampla rede de transmissão garantiam a segurança e o baixo custo da eletricidade. Essa situação representava uma importante vantagem competitiva para a economia brasileira e para a indústria.

Infelizmente, esse tempo passou. A energia elétrica, agora, é cara. O recente histórico de intervenções no setor aliado às questões de gestão e de planejamento desestabilizaram o modelo, gerando complexidade, judicialização e enormes passivos financeiros. 

O PL 5017/2019 foi aprovado recentemente na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado Federal, determinando a criação de mais subsídios e contratações compulsórias de geração que novamente irão aumentar a tarifa de energia, sem que critérios técnicos ou econômicos sejam considerados. 

O novo texto aprovado na Comissão de Serviços de Infraestrutura pegou o setor elétrico de surpresa. Estimativas da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia apontam que o custo acumulado com esses novos penduricalhos da conta de luz chegará a R$ 1,5 trilhão no acumulado na conta de luz até 2057, caso o Congresso Nacional aprove o projeto que prevê a contratação obrigatória de termelétricas a gás e pequenas hidrelétricas, entre outros dispositivos.

Trata-se de um caminho incompatível com a necessidade urgente de reduzir o Custo Brasil. A indústria é o setor da economia mais sensível ao preço dos insumos energéticos, devido à elevada participação da energia no custo total de produção. A racionalização dos encargos, a redução gradual de subsídios que já não se justificam, o aperfeiçoamento da formação de preços e a ampliação da concorrência devem integrar uma agenda consistente de reformas.

O Brasil não pode desperdiçar a vantagem de ter uma das matrizes elétricas mais renováveis e competitivas do planeta. A energia precisa voltar a ser um diferencial para impulsionar a indústria, atrair investimentos e acelerar o crescimento econômico. Isso exige coragem para enfrentar privilégios, revisar subsídios e construir um setor elétrico mais transparente, eficiente e sustentável. Reduzir os penduricalhos da conta de luz não é apenas uma necessidade para os consumidores, mas uma condição indispensável para devolver competitividade à economia brasileira.

*Ricardo Alban é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O artigo foi publicado na Folha de S. Paulo, no dia 30 de julho de 2026.

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